Sempre fui um cara de computador. Desde a escola, era nele que eu fazia pesquisas e trabalhos, na faculdade isso só se intensificou: eu chegava das aulas, sentava e estudava resumindo capítulos de livros em documentos de texto digitados. No meio da graduação comprei um HP Stream 11 — um netbook de processamento fraquinho, mas suficiente para redigir documentos durante as aulas. Rodava um Linux bem leve, o Debian Mate, e na época me atendeu muito bem.
Com o tempo as coisas mudaram. Me formei, comecei a trabalhar e a demanda deixou de ser “fazer resumo” para virar “ler muito, e ler rápido”. Cada vez mais eu abandonava o resumo tradicional e focava em ler o máximo de artigos possíveis, da forma mais atualizada possível. E aí esbarrei numa preferência antiga que o computador nunca resolveu bem: sempre gostei de uma leitura mais dinâmica, grifando, rabiscando comentários nas laterais das paginas, fazendo anotações no meio dos parágrafos.
Diante dessa necessidade, comprei meu primeiro tablet, o Galaxy tab S6 lite da Samsung. Foi um investimento excelente que se pagou com o tempo de uso. O mais impressionante é que até hoje ele funciona perfeitamente bem, sem arranhões, sem uma única batida – e olha que eu nunca usei nem película e nem capa de proteção, além da capa original.
A experiência foi sensacional: toda a minha biblioteca de livros em PDFs passou a caber na mochila, de forma ultraportátil. Graças à excelente e fantástica caneta S pen, grifar e anotar os PDFs (no Xodo, o melhor aplicativo para ler e editar PDFs no Android) se tornou uma atividade extremamente agradável e fluida. Graças ao Dropbox, consegui uma forma de sincronizar tudo com o computador — anoto PDFs no tablet, chego em casa e continuo a leitura e anotação pelo computador, de onde parei, podendo continuar grifando pelo melhor leitor de PDF do linux, o Okular. Criei então meu fluxo de trabalho de dois dispositivos: o tablet para consumir e marcar conteúdo, o computador para as tarefas mais exigentes, como montar uma apresentação de slides para seminários e criar resumos em documentos de texto.
Comecei a residência médica e a necessidade de um “computador de verdade” ficou mais evidente. O tablet era ótimo para ler artigos, mas eu precisava de uma máquina que me permitisse a produtividade de editar documentos em qualquer lugar com facilidade. Comprei um teclado portátil, mas não era prático carregar um tablet e um teclado separados por aí. Queria algo mais portátil e que fosse uma solução num único dispositivo.
Cheguei a pensar em comprar um notebook, mas sempre esbarrei no mesmo problema: notebooks muito caros para as configurações que entregam e, no fim das contas, você paga caro por uma carcaça de plástico mal construída. Enquanto um notebook de carcaça robusta custa acima dos 10 mil reais, qualquer tablet baratinho já costuma ser de metal, compacto e de acabamento minimamente razoável, mais bem construído que qualquer notebook intermediário.
Nunca fui muito de notebooks, sempre preferi desktops — montar peça por peça é mais custo-efetivo e garante mais longevidade ao equipamento, principalmente por permitir upgrades de peças novas e substituições das peças antigas. Já os notebooks, têm uma pegada mais descartável com o tempo.
O ponto de virada foi descobrir o Samsung DeX, ainda no Tab S6, cuja existência demorei pra tomar conhecimento. Quando comecei a usar, me apaixonei. Mesmo com a limitação de hardware simples do tab S6 lite — pouca RAM, então não dava para abrir muitos aplicativos ao mesmo tempo — eu já conseguia ler e anotar PDFs a mesmo tempo que conseguia montar slides.
Depois vieram necessidades mais pesadas: pesquisa profunda de literatura, uso de IA para ajudar em pesquisa, multitarefas entre vários arquivos e documentos… comecei a precisar de uma máquina mais potente para suportar uma alta carga de trabalho, necessidade que me levou a comprar o Tab S11, um dos tablet mais potentes da Samsung até agora, que vem me atendendo muito bem. As limitações que ainda encontro são pontuais: uso o Anki para criar flashcards e editar os cartões no painel de notas do aplicativo no Android não é nada prático comparado à edição em massa no computador. Então, quando preciso fazer ou editar muitos flashcards, ainda recorro ao PC. Fora isso, praticamente tudo — assistir aula, escrever documento e slides, pesquisar, até trabalhos mais avançados como dissertações — resolvo no tablet, com mouse e a capa-teclado que já vem inclusa.
Quando soube do lançamento do MacBook Neo no Brasil, reparei que a faixa de preço era bem parecida com a do Tab S11. Fiquei pensando se não teria valido mais a pena comprar um notebook bem construído e com boa longevidade — afinal, sempre fui um cara “heavy user” de computadores.
Mas, pensando bem, o que realmente me conquistou foi a caneta e a possibilidade de anotações iguais às de um papel e caneta. Faz muita diferença no meu fluxo: tenho uma biblioteca enorme de artigos grifados ao longo dos anos e fui deixando de fazer resumos tradicionais. Atualmente meus “resumos” já são as anotações diretas nos artigos. Hoje, quando preciso revisar um assunto, abro os artigos e vou direto nos trechos de interesse que foram grifados desde o momento da leitura já pensando em facilitar o encontro futuro. Isso economiza muito tempo e me permite estar sempre revisitando o conteúdo original – “bebendo da fonte”.
Ainda faço poucos resumos, fluxogramas e tabelas para assuntos mais complexos, quando preciso estruturar o raciocínio do zero, mas para temas mais simples — pneumonia, hipertensão… — nem cogito fazer isso. Um ganho coletaral é que acabo memorizando mais a fonte original do conteúdo.
Às vezes penso se não valeria a pena migrar de vez para um MacBook. Eu manteria todo o meu fluxo de trabalho normal, com a única desvantagem real de perder a caneta e a possibilidade de grifar. Mesmo em notebooks com telas sensíveis ao toque, a experiência não se compara à experiência de usar uma S pen.
Infelizmente, no tablet sinto falta de programas de edição de imagens semelhantes aos de computador, como o Gimp. Sinto falta também do aplicativo de desktop do Anki. No tablet não consigo fazer flashcards com a mesma agilidade que no computador. Nesses pontos, o fluxo no computador ainda é bem melhor.
Mas, no fim, o tablet foi muito bom para o meu objetivo principal, que é estudar. Ganhei eficiência e produtividade justamente porque ele está sempre comigo, é leve, cabe na bolsa, a qualquer momento dá para sacá-lo e começar a ler um artigo ou montar um documento. Em deslocamento, então, é sensacional: consigo trabalhar de qualquer lugar sem carregar peso. É desagradável ler artigos no notebook e ter que “grifar” com o mouse. A caneta permite a mesma sensação de escrever sobre o papel, muito mais convidativa para a leitura do que clicar e arrastar um cursor.